
Quando a Política Sai da Vitrine
Procuro por uma palavra para começar e não encontro. Reluto em iniciar com “incrível”, mas talvez seja exatamente essa a palavra. Não porque o fato seja extraordinário, e sim porque ele resume, em poucas linhas, uma estranha característica do Brasil contemporâneo.
No final da tarde de um sábado, logo depois de um feriado religioso, vou procurar notícias sobre a janela partidária. Quero saber quem mudou de legenda, quais bancadas cresceram, quais alianças começam a se desenhar para as eleições municipais e como essas movimentações podem alterar o equilíbrio de poder nos municípios.
Afinal, não se trata de assunto secundário. A janela partidária encerra um dos momentos mais importantes do calendário político. É nela que prefeitos reorganizam apoios, vereadores escolhem novas siglas, deputados recalculam sua posição e partidos procuram ampliar sua influência. Em ano eleitoral, essas mudanças têm impacto direto sobre candidaturas, coligações, orçamento local e governabilidade.
Mas, ao abrir o portal de notícias, encontro outra coisa.
A notícia mais lida não é sobre partidos, bancadas ou alianças. Também não é sobre a redefinição das forças políticas nas cidades. A mais lida é: “BBB 26: parcial da enquete surpreende com alta porcentagem de quem sai”.
Bem, não é fácil compreender o Brasil.
Talvez fosse natural imaginar que, em um ano eleitoral, a reorganização silenciosa do sistema político ocupasse o centro da atenção pública. Afinal, serão essas decisões que influenciarão os próximos anos: a qualidade dos serviços públicos, a condução do orçamento, a capacidade de investimento, o emprego, a infraestrutura e a vida cotidiana de milhões de pessoas.
Mas não. Em meio às trocas de partido, aos cálculos eleitorais e à disputa real pelo poder, a vitrine é ocupada por um reality show.
Não se trata de condenar o entretenimento. Sociedades modernas vivem também de distração, leveza e espetáculo. O lazer é legítimo; o interesse por programas populares, também. O que causa estranheza não é a existência do entretenimento, mas a proporção entre as coisas.
A política, que decidirá o destino das cidades e influenciará diretamente a vida econômica e social do país, aparece no rodapé. O espetáculo aparece na vitrine.
Há, nisso, algo mais profundo do que uma simples preferência de leitura. Existe uma mudança na forma como a atenção pública é organizada. A lógica das plataformas digitais, dos portais e das redes sociais privilegia aquilo que é rápido, emocional, simples e imediatamente compartilhável. A política, ao contrário, exige contexto, exige tempo, exige esforço intelectual.
Compreender uma troca partidária requer saber quem saiu, por que saiu, quais alianças foram rompidas, quais foram construídas e quais interesses estão por trás do movimento. Já a enquete de um reality show oferece uma resposta instantânea, sem mediações: alguém entra, alguém sai, alguém vence.
Talvez por isso o entretenimento ocupe tão facilmente o espaço que deveria ser reservado ao debate público. Não porque a política tenha deixado de ser importante, mas porque ela perdeu a capacidade de disputar, em condições equivalentes, a atenção das pessoas.
Esse talvez seja um dos traços mais inquietantes do Brasil contemporâneo: não a falta de informação, mas a inversão das prioridades.
Seria confortável atribuir essa inversão apenas à distração espontânea das pessoas. Mas talvez exista algo mais. A atenção pública não é inteiramente livre; ela é disputada, orientada e, muitas vezes, conduzida. Portais, plataformas, algoritmos e interesses econômicos aprendem rapidamente que o entretenimento mobiliza mais cliques, produz menos conflito e gera maior permanência. A política, sobretudo quando toca em alianças, poder local e reorganização partidária, exige esforço e pode contrariar conveniências. Não é impossível, portanto, que a sociedade seja continuamente estimulada a olhar para o lado oposto daquilo que realmente importa.
Talvez por isso a questão central não seja apenas informar, mas formar. O Brasil parece padecer menos de ausência de notícias e mais de ausência de educação política. Não no sentido partidário ou ideológico, mas no sentido elementar de compreender como decisões aparentemente distantes determinam impostos, emprego, transporte, escolas, hospitais e oportunidades. Talvez fosse preciso algo próximo de uma alfabetização política para adultos: a capacidade de ler, por trás das manchetes, quem ganha, quem perde e quais interesses estão em jogo.
Vivemos em um país no qual todos têm acesso a notícias, mas poucos conseguem distinguir o que é apenas passageiro daquilo que efetivamente definirá o futuro. Em ano eleitoral, essa inversão torna-se ainda mais grave. Enquanto a política reorganiza silenciosamente o poder, a sociedade olha para outro lado.
E talvez seja justamente aí que comece a explicação para tantas perplexidades posteriores: as pessoas se surpreendem com o resultado das eleições, com a qualidade dos governos, com a direção do país.
Depois de um feriado religioso, talvez fosse preciso esperar outro milagre. Não a ressurreição de um santo, mas a de Paulo Freire. Em Angicos, quarenta e cinco dias bastaram para alfabetizar trezentos trabalhadores. Talvez, diante do Brasil de hoje, bastassem para algo ainda mais difícil: alfabetizar politicamente um país inteiro.
Mas, muito antes disso, eles abriram a página de notícias, olharam para a vitrine e deixaram passar o que realmente decidiria o futuro.
