PE-016 – Valorização de Participações Minoritárias

1. Objetivo do Estudo

Este Estudo 16 abordará a valorização de participações acionárias minoritárias, a escolha do fluxo de caixa a ser descontado, a taxa de desconto a ser utilizada e a aplicação da perpetuidade sem e com crescimento como valor residual do fluxo de caixa.

A metodologia apresentada também pode ser utilizada para determinação do valor de participações majoritárias, embora o foco sejam os investidores minoritários.

Recomendamos a leitura dos Estudos 8 e 15 antes de prosseguir.

Prévia do Estudo 17: No próximo estudo, trataremos da metodologia para avaliação de empresas pelo método do fluxo de caixa descontado, amplamente utilizada para valorizar participações majoritárias.

2. Modelos para Valorização de Empresas

Normalmente utilizam-se vários modelos para avaliação de empresas, cada um com sua particularidade e complexidade. Todavia, vamos aceitar como principal fundamento para valorização de empresas a sua capacidade de remuneração aos acionistas.

Considerando que este Estudo está prioritariamente dirigido a investidores interessados na avaliação de participações minoritárias, vamos aceitar a máxima:

“O valor de uma participação minoritária é o valor presente do fluxo futuro de dividendos”

Um acionista minoritário espera de seu investimento dois benefícios:

  • Dividendos
  • Ganho de capital

Ao final das contas, todo o valor de uma participação acionária é condicionado pelo comportamento dos dividendos futuros, no curto e longo prazos.

3. A Escolha do Fluxo de Caixa a ser Descontado

Participação minoritária corresponde à posse de ações em número insuficiente para que seu proprietário tenha direito ao controle da companhia. Isto significa que o acionista minoritário não terá influência sobre as decisões tomadas pelos administradores. Ele é apenas um investidor, sem ser o controlador.

O retorno do investimento é dado pelos dividendos mais o ganho de capital. O ganho de capital é impactado pelo valor do lucro líquido que está sendo retido (ao invés de ser pago como dividendo) para que seja reaplicado pela empresa em projetos que criem valor e gerem cada vez mais dividendos no futuro.

Conclusão: Na valorização de participações minoritárias, descontamos o fluxo de dividendos.

4. A Escolha da Taxa de Desconto

Na valorização de uma participação minoritária, onde descontamos fluxos de dividendos, utilizamos o Custo do Capital Próprio (CCP). Os fluxos gerados serão pagos aos acionistas e sobre eles devemos utilizar a taxa de desconto exigida pelos acionistas, que é exatamente o CCP.

4.1. Modelo CAPM (Capital Asset Pricing Model)

A metodologia mais utilizada para o cálculo do CCP é o CAPM. Neste modelo, o custo do capital acionário é igual à taxa de retorno de um ativo sem risco, somada a um prêmio pelo risco representado pelas ações da empresa.

Equação característica do CAPM:

RS = RF + β × [E(RM) – RF]

Onde:

  • RS = Custo do capital acionário
  • RF = Taxa de retorno de um ativo sem risco
  • [E(RM) – RF] = Prêmio de risco do portfólio de mercado em relação ao ativo sem risco
  • β = Risco sistemático das ações da empresa

Para empresas cujas ações não são negociadas em Bolsa, utiliza-se o beta médio de empresas assemelhadas.

4.2. Versão adaptada para o Brasil

RCP = RF + β × [E(RM) – RF] – inflação/EUA + risco/BR

5. Exemplo Prático: Valorização de uma Participação Minoritária

A Companhia Alfa estava estudando a compra de 10% do capital social da Companhia Beta, uma empresa de atuação num segmento de interesse estratégico. Não havia interesse em participar da gestão. A maior motivação está na perspectiva de recebimento de elevados dividendos.

Um consultor foi contratado para determinar o valor justo desta participação acionária.

5.1. Premissas

  • Projeção do lucro líquido para os próximos 4 anos
  • Os 3 primeiros anos refletem o período de crescimento (projetos criam valor)
  • Do ano 4 em diante: perpetuidade sem crescimento (lucro constante)
  • Existindo lucro, 25% são distribuídos como dividendos
  • CCP = 15% a.a.

5.2. Dados Projetados

Ano Lucro (R$) Dividendos (25% do Lucro) (R$)
1 2.000 500
2 4.000 1.000
3 6.000 1.500
4 8.000 8.000

Observação: No ano 4, todo o lucro é distribuído como dividendo porque a perpetuidade sem crescimento já se iniciou.

5.3. Cálculo do Valor da Participação

Valor = R$ 500 / 1,15 + R$ 1.000 / 1,15² + R$ 1.500 / 1,15³ + (R$ 8.000 / 0,15) / 1,15³

Valor = R$ 434,78 + R$ 756,14 + R$ 986,27 + R$ 35.067,53

Valor = R$ 37.244,72

5.4. Comentários do Exemplo

Anos 1, 2 e 3 – Períodos de criação de valor:

  • Ano 1: Distribuídos R$ 500, retidos R$ 1.500. Se reaplicados a 15%, o lucro no ano 2 seria R$ 2.225. Porém, o lucro foi R$ 4.000 → criação de valor.
  • Ano 2: Distribuídos R$ 1.000, retidos R$ 3.000. Se reaplicados a 15%, o lucro no ano 3 seria R$ 4.450. Porém, o lucro foi R$ 6.000 → criação de valor.
  • Ano 3: Distribuídos R$ 1.500, retidos R$ 4.500. Se reaplicados a 15%, o lucro no ano 4 seria R$ 6.675. Porém, o lucro foi R$ 8.000 → criação de valor.

Do ano 4 em diante – Perpetuidade sem crescimento: Os projetos não criam valor. Os lucros retidos são reaplicados à mesma taxa do CCP (15%). A política de dividendos é irrelevante.

Exemplo de irrelevância da política de dividendos: Se no ano 4 a empresa distribuísse apenas R$ 2.000 e reteve R$ 6.000, aplicando a 15%, o lucro no ano 5 seria R$ 8.900. O valor da participação seria o mesmo: R$ 37.244,72.

5.5. Quando assumir a perpetuidade sem crescimento?

Três condições devem ser alcançadas:

  1. Otimização dos preços de venda e dos gastos operacionais
  2. Plena utilização da capacidade instalada
  3. Estrutura de capital ideal (relação dívidas / capital próprio)

Nota: No Brasil, poucas empresas encontram-se no estágio ideal de maturidade. Para a maioria, este estágio deverá ser alcançado nos próximos anos.

6. Perpetuidade com Crescimento

E se a Companhia Beta a partir do ano 4 reaplicasse os lucros retidos a uma taxa de 16% a.a.? Qual seria o “G”? Qual seria o novo valor da participação acionária?

6.1. Premissas adicionais

  • Dividendos continuam representando 25% do lucro líquido
  • Taxa de retenção = 75%
  • Taxa de aplicação dos lucros retidos = 16% a.a.

6.2. Cálculo do G

G = Taxa de retenção × Taxa de aplicação

G = 0,75 × 0,16 = 0,12 = 12% a.a.

6.3. Demonstração

  • Ano 4: Lucro R$ 8.000 → Dividendos R$ 2.000, Retenção R$ 6.000
  • Ano 5: Lucro = R$ 8.000 + (0,16 × R$ 6.000) = R$ 8.960 → Dividendos = R$ 2.240
  • Crescimento dos dividendos = R$ 2.240 / R$ 2.000 = 12%

6.4. Cálculo do Valor da Participação

Valor da perpetuidade no ano 3 = R$ 2.000 / (0,15 – 0,12) = R$ 66.666,67

Valor presente da perpetuidade = R$ 66.666,67 / 1,15³ = R$ 43.834,42

Valor total da participação = R$ 434,78 + R$ 756,14 + R$ 986,27 + R$ 43.834,42

Valor = R$ 46.011,61

6.5. Comparação

Cenário Valor
Perpetuidade sem crescimento R$ 37.244,72
Perpetuidade com crescimento (G=12%) R$ 46.011,61
Diferença 24%

Atenção: A perpetuidade somente deve ser assumida quando a empresa estiver madura. A taxa de aplicação dos lucros retidos deve ser ligeiramente superior ao CCP para não gerar variações absurdas.

7. Caso Prático Proposto

Um analista projetou o lucro de sua companhia por 5 anos. Segundo sua análise prospectiva:

  • Os 4 primeiros anos refletem o período de crescimento (projetos criam valor)
  • Do ano 5 em diante: perpetuidade sem crescimento (lucros constantes)
  • Existindo lucro, 25% são distribuídos como dividendos
  • CCP = 20% a.a.

Dados

Ano Lucro (R$) Dividendos (25% do Lucro) (R$)
1 1.000 250
2 2.000 500
3 3.000 750
4 4.000 1.000
5 5.000 5.000

Questão 1

Calcule o valor da participação acionária.

Questão 2

E se do ano 5 em diante a empresa conseguisse aplicar em projetos com retorno de 22% a.a. para o acionista, mantendo a mesma política de dividendos (25% distribuídos)? Qual seria o novo valor da empresa?

Comente os resultados.

8. Solução do Caso Prático

Solução da Questão 1 – Perpetuidade sem crescimento

Valor da perpetuidade no ano 4 = R$ 5.000 / 0,20 = R$ 25.000

Ano Dividendo (R$) Valor Presente (R$)
1 250 250 / 1,20 = 208
2 500 500 / 1,20² = 347
3 750 750 / 1,20³ = 434
4 1.000 1.000 / 1,20⁴ = 482
5 5.000 + perpetuidade (5.000 + 25.000) / 1,20⁵ = 30.000 / 2,48832 = 12.056

Valor da participação = R$ 13.527

Comentários:

  • No ano 5 (início da perpetuidade), assumimos que 100% do lucro é distribuído. Isso é correto porque, com perpetuidade sem crescimento, a política de dividendos é irrelevante.
  • Se a empresa retivesse parte do lucro e reaplicasse a 20%, o valor não se alteraria.

Solução da Questão 2 – Perpetuidade com crescimento (G = 16,5%)

Se a empresa reter 75% do lucro e obtiver produtividade de 22% a.a.:

G = 0,75 × 0,22 = 0,165 = 16,5% a.a.

Dividendo no ano 5 = 25% × R$ 5.000 = R$ 1.250

Valor da perpetuidade no ano 4 = R$ 1.250 / (0,20 – 0,165) = R$ 35.714

Valor presente da perpetuidade = R$ 35.714 / 1,20⁴ = R$ 17.223

Valor total = R$ 208 + R$ 347 + R$ 434 + R$ 482 + R$ 17.223

Valor = R$ 18.694

Comparação dos resultados

Cenário Valor
Perpetuidade sem crescimento R$ 13.527
Perpetuidade com crescimento (G=16,5%) R$ 18.694
Diferença 38%

9. Fórmulas para Automação (Excel/Google Sheets)

Cálculo Fórmula
G a partir da política de retenção =Taxa_Retencao * Taxa_Retorno_Reinvestimento
Perpetuidade sem crescimento =Dividendo / CCP
Perpetuidade com crescimento =Dividendo / (CCP – G)
VP com perpetuidade iniciando em n =VP_dos_fluxos_ate_n + (Valor_da_Perpetuidade / (1+CCP)^n)

10. Comentários e Conclusões Finais

  • Na valorização de participações minoritárias, utilizamos o desconto do fluxo de dividendos.
  • A taxa de desconto adequada é o Custo do Capital Próprio (CCP).
  • O modelo CAPM é a metodologia mais utilizada para cálculo do CCP.
  • No contexto de perpetuidade sem crescimento, não há criação de valor para o acionista. A política de dividendos é irrelevante.
  • Na perpetuidade com crescimento, os lucros retidos são reaplicados em projetos que oferecem taxas de retorno superiores ao CCP, gerando criação de valor.
  • O crescimento G é calculado como: G = Taxa de retenção × Taxa de aplicação dos lucros retidos
  • A perpetuidade com crescimento deve ser utilizada com cautela, pois um G elevado ao infinito pode levar a valores excessivos.
  • Para empresas brasileiras, recomenda-se projetar o fluxo de dividendos explicitamente até que a empresa atinja o estágio de maturidade (perpetuidade sem crescimento ou com G moderado).

Próximo Estudo: No PE-017, trataremos da valorização de participações majoritárias pelo método do fluxo de caixa descontado, incluindo o tratamento do serviço da dívida e dos investimentos

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