PE_010 – Elaboração de um Orçamento Empresarial (Orientado para a Criação de Valor para o Acionista)

Neste Estudo 10, trataremos da elaboração de um orçamento com base no lucro desejado pelo acionista, isto é, dado um lucro-meta, o quanto deveremos vender de um produto ou unidade de negócio para que possamos atingir este lucro desejado.

Neste exemplar, trabalharemos apenas com uma única unidade de negócio. No Estudo 11, trabalharemos com mais unidades, integrando a Demonstração de Resultado com o Balanço Patrimonial e o Fluxo de Caixa.

Todo o conteúdo deste Estudo 10 será prático, podendo ser utilizado no dia-a-dia das empresas.

1. Introdução: Orçamento Tradicional versus Orçamento Orientado para o Acionista

Muito se tem falado sobre a elaboração de orçamentos, com vários livros tratando deste assunto. Mas todos eles convergem sempre para o mesmo tipo de orçamento: o orçamento “de cima para baixo”, isto é, dados os preços e quantidades a serem vendidas, passamos por custos e despesas até alcançarmos o lucro.

O objetivo deste e do próximo Estudo é mostrar outro tipo de orçamento, e como ele pode ser melhor aproveitado do que os orçamentos “tradicionais”.

Nesta metodologia, partimos do lucro desejado pelo acionista para então chegarmos às vendas necessárias para que este objetivo seja alcançado. Podemos perceber de imediato o quanto esta nova forma de apresentação ajuda os executivos da empresa, pois eles já partem do quanto os acionistas querem ganhar.

Neste Estudo, discutiremos o tratamento a ser dado aos gastos fixos e aos gastos variáveis, e qual a principal característica dos produtos para pertencerem a uma unidade de negócio. Concentraremos nossa atenção no orçamento de resultados, isto é, no cálculo do faturamento de equilíbrio.

2. Conceitos Fundamentais

Para avançarmos, é essencial dominar a terminologia:

  • Custo: Todo sacrifício financeiro ligado à atividade de produção de um bem ou serviço. Exemplos: matérias-primas, mão-de-obra direta.
  • Despesa: Todo sacrifício financeiro ligado às atividades de suporte da produção, não sendo diretamente ligado a ela. Exemplos: despesas de propaganda, despesas administrativas.
  • Gasto: Todo e qualquer tipo de sacrifício financeiro, independentemente de sua natureza. Abrange tanto custos quanto despesas.
  • Gasto Variável: Todo custo ou despesa que varia na mesma proporção das vendas/produção. Exemplo: ICMS, matérias-primas, embalagens.
  • Gasto Fixo: Todo custo ou despesa que permanece inalterado em função do comportamento das vendas/produção, dentro de uma certa unidade de tempo. Exemplos: aluguéis, depreciação de equipamentos. Os gastos fixos geralmente crescem ou decrescem ao longo do tempo em “degraus”.
  • Gasto Fixo Não Identificado: Em empresas com várias unidades de negócio, representa o valor dos custos que não podem ser atribuídos a uma unidade especificamente. Ex.: honorários dos administradores, aluguel do prédio. Alocá-los seria arbitrário e equivocado.
  • Gasto Semivariável: Todo custo ou despesa que se altera em função das vendas/produção, mas não na mesma proporção. Exemplo: energia elétrica (parte fixa + parte variável).
  • Margem de Contribuição: É o preço de venda menos os gastos variáveis. Representa o valor que cada produto “contribui” para absorver os gastos fixos e gerar lucro.
    • Fórmula: Margem de Contribuição Unitária = Preço de Venda – Gastos Variáveis Unitários
  • Ponto de Equilíbrio com Lucro Zero: É a quantidade (ou valor) de vendas necessária para cobrir todos os gastos variáveis e fixos, resultando em lucro zero. Na prática, calcula-se o ponto de equilíbrio com uma meta de lucro.

3. A Definição da Meta de Lucro Desejada pelo Acionista

Nos orçamentos tradicionais, começamos pelas receitas e, após deduzir custos e despesas, chegamos ao lucro. Se o lucro não agrada, refaz-se o processo.

Em um orçamento orientado para a criação de valor para o acionista, partimos do lucro desejado pelos acionistas para então chegar às receitas a serem perseguidas. Cabe ao administrador racionalizar custos e/ou aumentar vendas para alcançar a meta de retorno esperada.

Etapas para determinar a meta de lucro:

  1. Determinar uma estrutura patrimonial de partida.
  2. Identificar o custo médio ponderado de capital (CMPC).
  3. Calcular o lucro operacional de equilíbrio.

Exemplo Prático:

ETAPA 1: DETERMINAÇÃO DA ESTRUTURA PATRIMONIAL DE PARTIDA

Balanço Patrimonial em 30 de junho de 1998 (valores em R$)

ATIVO VALORES PASSIVO VALORES
Ativo Operacional (AO) 10.000 Passivo Operacional (PO) 2.000
Capital de Terceiros (CT) 3.000
Capital Próprio (CP) 5.000
Total 10.000 Total 10.000

Definições:

  • Ativo Operacional (AO): R$ 10.000. Todo investimento necessário em capital de giro e capital fixo para produzir e vender.
  • Passivo Operacional (PO): R$ 2.000. Financiamentos espontâneos (fornecedores, salários, impostos sobre vendas, etc.).
  • Capital de Terceiros (CT): R$ 3.000. Financiamentos bancários e operações assemelhadas.
  • Capital Próprio (CP): R$ 5.000. Recursos dos acionistas mais lucros reinvestidos.

Custos de Capital (já líquidos de IR):

  • Custo do Capital de Terceiros (CCT) = 1% ao mês
  • Custo do Capital Próprio (CCP) = 2% ao mês

ETAPA 2: IDENTIFICAÇÃO DO CUSTO MÉDIO PONDERADO DE CAPITAL (CMPC)

Do Ativo Operacional total (R$ 10.000), R$ 2.000 são financiados espontaneamente (PO). Portanto, o volume de capitais que precisam ser remunerados (Ativo Operacional Líquido – AOL) é de R$ 8.000, composto por R$ 3.000 de CT e R$ 5.000 de CP.

Balanço Patrimonial Ajustado

ATIVO VALORES PASSIVO VALORES
Ativo Operacional Líquido (AOL) 8.000 Capital de Terceiros (CT) 3.000
Capital Próprio (CP) 5.000
Total 8.000 Total 8.000

O CMPC é a média ponderada do custo da estrutura de capital:

CMPC = (3.000 / 8.000) * 0,01 + (5.000 / 8.000) * 0,02
CMPC = 0,00375 + 0,0125 = 0,01625 = 1,625% ao mês

Interpretação: Os administradores têm à disposição R$ 8.000 (AOL) para gerar lucro, mas esse capital não é gratuito. Ele custa 1,625% ao mês. Portanto, o lucro operacional precisa ser suficiente para, no mínimo, pagar esse custo.

ETAPA 3: CÁLCULO DO LUCRO OPERACIONAL DE EQUILÍBRIO

Lucro Operacional de Equilíbrio = CMPC * AOL
Lucro Operacional de Equilíbrio = 0,01625 * R$ 8.000 = R$ 130

Prova do Lucro Operacional de Equilíbrio:

Item Cálculo Valor (R$)
Lucro Operacional de Equilíbrio 130
(-) Juros (CCT sobre CT) 0,01 * 3.000 (30)
(=) Lucro Líquido 100

O Lucro Líquido de R$ 100 corresponde a um retorno de 2% sobre o Capital Próprio (R$ 100 / R$ 5.000 = 0,02), exatamente o CCP desejado.

Conceito: O lucro operacional de equilíbrio é aquele que paga o custo do capital de terceiros e remunera o capital próprio na medida da expectativa mínima dos acionistas. Na prática, busca-se uma meta de lucro acima do equilíbrio, para superar as expectativas e criar valor.

4. Estrutura para o Orçamento Orientado ao Acionista

A estrutura a seguir é a base para o cálculo do orçamento segundo a metodologia proposta:

Etapa Fórmula
Receitas (+)
(-) Impostos (-)
(=) Receita Líquida
(-) Custos Variáveis (-)
(=) Margem de Contribuição
(-) Gastos Fixos Identificados (-)
(=) Lucro Operacional
(-) Gastos Fixos Não Identificados (-)
(=) Lucro Desejado pelo Acionista

Para o cálculo da Receita de Equilíbrio (RE) de uma unidade de negócio, utiliza-se a seguinte lógica:

RE = Lucro Desejado + Gastos Fixos Totais (Identificados + Não Identificados) + Impostos + Gastos Variáveis

Como Impostos e Gastos Variáveis são percentuais da própria Receita de Equilíbrio, a fórmula se desenvolve algebricamente.

5. Exemplo de Cálculo da Receita de Equilíbrio

Vamos considerar uma empresa com diversos produtos, todos agrupados em uma única unidade de negócio. Os dados (em milhares de reais) são:

  • Lucro operacional desejado pelo acionista: R$ 1.500
  • Gastos fixos totais: R$ 800
  • Gastos variáveis: 65% da receita bruta
  • Impostos: 10% da receita bruta

Qual a receita de equilíbrio (RE)?

Equação:
RE = 1.500 + 800 + 0,10 * RE + 0,65 * RE

Isolando RE:
RE – 0,10RE – 0,65RE = 1.500 + 800
0,25RE = 2.300
RE = 2.300 / 0,25 = R$ 9.200

Prova de Rentabilidade:

Item Valor (R$) % sobre Receita
Receita Bruta 9.200 100%
(-) Impostos (10%) (920) (10%)
(=) Receita Líquida 8.280 90%
(-) Gastos Variáveis (65%) (5.980) (65%)
(=) Margem de Contribuição 2.300 25%
(-) Gastos Fixos (800) (8,7%)
(=) Lucro Desejado 1.500 16,3%

6. Simulações: Impacto da Redução de Preço

Suponhamos que esta empresa fabrique televisores com preço médio de venda de R$ 40,00 por unidade.

  • Ponto de Equilíbrio em Quantidade = Receita de Equilíbrio / Preço Unitário
  • Quantidade de Equilíbrio = R$ 9.200 / R$ 40 = 230 unidades

Isso significa que, por televisor vendido:

  • Imposto = 10% de R$ 40 = R$ 4,00
  • Custo Variável = 65% de R$ 40 = R$ 26,00
  • Margem de Contribuição Unitária = R$ 40 – R$ 4 – R$ 26 = R$ 10,00

Cenário: Redução de 10% no Preço de Venda

  • Novo Preço = R$ 40 * 0,90 = R$ 36,00
  • O custo variável unitário permanece R$ 26,00 (valor absoluto), mas seu percentual sobre o novo preço muda: R$ 26 / R$ 36 = 0,7222 (72,22%)
  • Impostos continuam 10% sobre o novo preço.

Qual a nova receita de equilíbrio?

RE = 1.500 + 800 + 0,10RE + 0,7222RE
RE – 0,10RE – 0,7222RE = 2.300
0,1778RE = 2.300
RE = 2.300 / 0,1778 = R$ 12.936

Novo Ponto de Equilíbrio em Quantidade:
R$ 12.936 / R$ 36 = 359 unidades

Análise do Impacto:

  • A receita de equilíbrio aumentou 41% (de R$ 9.200 para R$ 12.936).
  • A quantidade de equilíbrio aumentou 56% (de 230 para 359 unidades).
  • Isso demonstra que, quando a margem de contribuição percentual diminui, uma pequena redução no preço exige um grande aumento no volume de vendas para manter o mesmo lucro.

7. A Armadilha de Tratar Gastos Fixos como Percentual da Receita

Se, no exemplo anterior, tratássemos os gastos fixos (que são de R$ 800) como um percentual da receita (8,7%, que é a relação observada na situação inicial), o resultado da simulação seria completamente distorcido.

Recalculando com gastos fixos como 8,7% da receita (no cenário de preço reduzido):

RE = 1.500 + 0,087RE + 0,10RE + 0,7222RE
RE – 0,087RE – 0,10RE – 0,7222RE = 1.500
0,0908RE = 1.500
RE = 1.500 / 0,0908 = R$ 16.520

Novo Ponto de Equilíbrio em Quantidade (preço R$ 36):
R$ 16.520 / R$ 36 = 459 unidades

Comparação:

Item Maneira Correta Maneira Errada Diferença
Receita de Equilíbrio R$ 12.936 R$ 16.520 +27,7%
Gastos Fixos R$ 800 R$ 1.438 +79,7%
Volume de Equilíbrio 359 unid. 459 unid. +27,9%

Conclusão: Tratar gastos fixos como percentual da receita faz com que, na simulação, eles aumentem automaticamente com a receita, o que não ocorre na realidade. Isso leva a uma superestimação do esforço de vendas necessário e a decisões equivocadas. Gastos fixos devem ser tratados em valores absolutos.

8. Exercícios Propostos (para praticar)

Exercício 1:
No exemplo dado no texto, na situação de equilíbrio, o custo fixo era de R$ 800 em valores absolutos. Vamos considerar agora o custo fixo como sendo seu valor em relação às vendas brutas, isto é, 8,7% (R$ 800 / R$ 9.200). Recalcule o faturamento de equilíbrio considerando o desconto de 10% nos preços e tratando os custos fixos com base na relação de 8,7% sobre a receita. Compare os resultados com a maneira correta.

Exercício 2:
Em nosso exemplo desenvolvido durante o texto, simulamos uma redução no preço de 10%. Esta redução provocou uma elevação das vendas em reais de 41% e de 56% em volume. O que aconteceria se déssemos mais 10% sobre o desconto já concedido (ou seja, um desconto total de 19% sobre o preço original de R$ 40)? Faça a prova e analise os novos percentuais de aumento.

9. Caso Prático Resolvido (Exercício 2)

Conforme solicitado no texto original, vamos resolver a segunda questão: aplicar mais 10% de desconto sobre o preço já reduzido.

Situação inicial após primeiro desconto (10%):

  • Preço: R$ 36,00
  • Custo Variável Unitário: R$ 26,00 (65% do preço original, mas em valor absoluto)
  • % Custo Variável sobre novo preço: 26/36 = 72,22%

Aplicando mais 10% de desconto (sobre o preço de R$ 36,00):

  • Novo Preço = R$ 36,00 * 0,90 = R$ 32,40
  • Custo Variável Unitário (absoluto) continua R$ 26,00.
  • Novo % Custo Variável = R$ 26,00 / R$ 32,40 = 0,8025 (80,25%)
  • Impostos continuam 10% sobre o novo preço.
  • Gastos Fixos: R$ 800 (valor absoluto)
  • Lucro Desejado: R$ 1.500

Cálculo da Nova Receita de Equilíbrio:

RE = 1.500 + 800 + 0,10RE + 0,8025RE
RE – 0,10RE – 0,8025RE = 2.300
0,0975RE = 2.300
RE = 2.300 / 0,0975 = R$ 23.589

Novo Ponto de Equilíbrio em Quantidade:
R$ 23.589 / R$ 32,40 = 728 unidades

Prova de Rentabilidade:

Item Valor (R$) % sobre Receita
Receita Bruta 23.589 100%
(-) Impostos (10%) (2.359) (10%)
(=) Receita Líquida 21.230 90%
(-) Gastos Variáveis (80,25%) (18.930) (80,25%)
(=) Margem de Contribuição 2.300 9,75%
(-) Gastos Fixos (800) (3,4%)
(=) Lucro Desejado 1.500 6,35%

Análise do Impacto do Segundo Desconto:

  • Comparado ao cenário com um desconto (RE = R$ 12.936), a nova receita de equilíbrio é 82% maior (R$ 23.589 / R$ 12.936).
  • Comparado ao cenário com um desconto (quantidade = 359 unid.), a nova quantidade de equilíbrio é 102% maior (728 / 359).

Conclusão Final:
Quanto mais a margem de contribuição se “aperta” (diminui), uma redução no preço implica em um aumento proporcionalmente maior do faturamento de equilíbrio, tanto em valor quanto em volume. A alavancagem operacional age em sentido contrário: pequenas variações no preço exigem grandes variações no volume para compensar.

Fórmulas para Automação (Excel/Google Sheets)

  1. Cálculo da Receita de Equilíbrio (com impostos e gastos variáveis percentuais):
    • = (Lucro_Desejado + Gastos_Fixos) / (1 – %_Impostos – %_Gastos_Variaveis)
  2. Cálculo do novo percentual de gasto variável após mudança de preço:
    • = Gasto_Variavel_Unitario / Novo_Preco
  3. Cálculo da Quantidade de Equilíbrio:
    • = Receita_de_Equilibrio / Preco_Unitario
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